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  • Dagomir Marquezi

Minha entrevista com Ciro Batelli (1935-2019)


É incrível como só há pouco tempo fiquei sabendo do falecimento de Ciro Batelli. Por volta de 2000 eu fiz uma viagem a Las Vegas a serviço da revista VIP. Lá, fiquei sabendo que Ciro, um paulista de Ribeirão Preto, era o vice-presidente da cadeia Caesars. Achei aquilo espantoso, mas não consegui falar com ele naquela viagem. Fiquei curioso: como ele tinha chegado a esse posto, e ganhado até o nome de uma rua em Vegas?


Em 2001 eu trabalhava para a Playboy e sugeri fazer de Ciro nosso convidado para o "entrevistão" da revista. Ciro revelou sua "missão" de liberar os cassinos no Brasil - e me convenceu que era uma hipocrisia estúpida manter essa proibição desde 1946.


Alguns meses depois da entrevista reencontrei Batelli num evento em São Paulo (o dessa foto acima). Na ocasião ele me disse que, na entrevista, eu havia feito ele parecer "melhor do que era de verdade". Nunca mais o vi. Só recentemente soube de seu falecimento por câncer aos 84 anos. É triste, mas fica o consolo que ele viveu intensamente sua vida.


Aqui vai um trecho da entrevista para a Playboy publicada em dezembro de 2001:


Para entrevistar Ciro Batelli, Playboy enviou o editor sênior Dagomir Marquezi. Seu relato:

“Foram duas sessões, uma antes de Ciro oficializar seu namoro com Hebe Camargo, outra no dia seguinte. Ele me recebeu em sua ‘casa’ paulistana, o Maksoud Plaza Hotel. Lá, ele conhece e é conhecido por todo mundo. A gerência sabe que ele gosta de uma bandeja de frutas típicas brasileiras (especialmente serigüela) quando se instala numa suíte.

Ciro fala com a entonação de um advogado, ele que já foi um procurador da Justiça. No princípio, é difícil entender o que ele fala. Mas a voz grave e profunda vai aos poucos ficando mais audível e logo explode em gargalhadas. Não podia ser diferente com alguém que conquistou Hebe Camargo.


Mesmo viciado por serigüelas e romãs, Ciro desenvolveu um hábito bem americano: toma baldes de ‘chafé’, um café solúvel descafeinado bem diluído em grandes canecas. E fuma. Sem parar. Cigarros Capri finos como cargas de caneta Bic, curtos e de baixos teores. Cigarros ‘dietéticos’, na sua definição. Ciro adquiriu outro bom costume dos americanos: não ter vergonha do que conquistou em sua vida. Ele não tem o menor problema em dar a lista de seus automóveis e fala em milhões de dólares com a naturalidade com que nós falamos em parcelar contas de 100 reais. Cada dólar ganho por ele pode ser muito bem explicado. Las Vegas virou um lugar cruel para quem sai da linha. Quem quer se dar bem em Vegas tem que provar a própria honestidade o tempo todo à implacável Comissão de Jogos. ‘Pago todos os meus impostos’, declara Batelli. ‘Mesmo porque pagar um advogado fica bem mais caro’”.


PLAYBOY – Como foi que o menino de Ribeirão Preto conquistou Las Vegas? BATELLI – Eu vim muito cedo do interior do Estado para a capital. Me formei em Direito. No início escrevia e produzia fotonovelas que eram vendidas para revistas brasileiras e espanholas. Entre meus artistas estavam o Fulvio Stefanini e o Agnaldo Rayol. Foi uma época muito gostosa, na década de 60. Aí comprei algumas casas noturnas em São Paulo, como o Cave e o Zumzum. Naquela época a noite era muito sofisticada, muito alegre, com uma mistura muito grande de pessoas. Artistas, gente de sociedade, prostitutas de luxo, grandes modistas. Foi o ápice do Denner, o surgimento do Clodovil. Foi também a era da Jovem Guarda, e guardo grandes amizades desde aquela época.


PLAYBOY — Com que dinheiro você comprou essas casas noturnas? BATELLI — Trabalhava e guardava. Não recorria a meus pais pelo orgulho de “me fazer homem”. Nunca fui um cara de jogar dinheiro fora. Ser homem naquela época significava ter um carro e um apartamento pagos. Mesmo que fosse uma quitinete no Bexiga, o primeiro imóvel que comprei, e que eu mantenho até hoje. É uma recordação da minha primeira conquista. Infelizmente não pude guardar o primeiro carro, um Volks 69, que eu lustrava todo dia.


PLAYBOY — E Las Vegas, como aparece na sua vida? BATELLI — Desde a década de 60 eu viajava todos os anos durante as férias. Na primeira ida a Las Vegas fiquei apaixonado pela iluminação, pela energia da cidade, pelos shows e pelos preços. Nessa primeira vez, em 1965, eu fiquei hospedado no Sand’s, que era o must da cidade. Fiquei numa suíte à beira da piscina que custava 25 dólares a diária. O show com Frank Sinatra custava 17 dólares e meio, com direito a dois drinques. Para um caipira de Ribeirão Preto foi um choque. Só para se ter uma idéia, quando o Frank Sinatra se apresentou aqui mesmo no Clube 150 do Maksoud Plaza, o preço da entrada era de 600 dólares por pessoa.


PLAYBOY — Até então, você era um simples turista. BATELLI — Em julho de 1966 eu voltei a Las Vegas, estava para ser inaugurado o primeiro hotel temático dos Estados Unidos, o Caesars Palace. Fui atraído ao hotel, como todo mundo. Passei a ir todos os anos para Vegas, e comecei a estudar o fenômeno dos cassinos, mais como hobby.


PLAYBOY — Mas já pensando na possibilidade de reabrir os cassinos brasileiros, certo? BATELLI — Nos anos 70 participei de um grupo de estudos em São Paulo sobre a possível reabertura dos cassinos no Brasil. Nesse debate ouvi muita besteira. Pesquisei dados reais, oficiais, em órgãos do governo norte-americano e contestei aqueles absurdos. Caí na graça da platéia. Fui aclamado presidente do comitê nacional pela reabertura dos cassinos.


PLAYBOY — Qual foi sua primeira providência no cargo? BATELLI — Fui falar com o Steve Karoul, que era vice-presidente de marketing da Caesars World. Pedi subsídios, apoio legal. Acabei sendo chamado para representar a cadeia Caesars no Brasil. Não sabia que no Brasil havia tantos jogadores interessados em freqüentar os cassinos americanos. Inventei loucuras de marketing que deram certo. Em 1985 fui convidado para trabalhar no Caesars de Atlantic City.


PLAYBOY — Como foi o convite? BATELLI — Em 1985 eu estava em Las Vegas para assistir uma luta do Sugar Ray Leonard. Dessa vez, em vez de minha mulher, eu viajei com minha sogra, com quem, aliás, me dou muito bem. Toca o telefone. É a secretária do Terry Lanni, o número 1 do Caesars na época, me convidando para um jantar. Nesse jantar havia mais executivos do que eu esperava. O Lanni me convida para assumir o departamento latino-americano do Caesars em Atlantic City. Eu disse: “A resposta só te dou amanhã”. Ninguém entendeu. “Como assim, Ciro? Nós temos 11 mil funcionários, e todos eles querem a posição que estamos te oferecendo”. Eu respondi: “Me desculpe, Terry, mas antes tenho que consultar minha sogra”.


PLAYBOY — A sogra?! BATELLI — Todo mundo caiu na gargalhada. “Com a sogra?!” Aí eu expliquei: “Eu sei que longe da mãe minha mulher não vai estar feliz. E se ela não estiver feliz, eu também não vou estar. Portanto, minha sogra é fundamental”. Riram muito e acharam que era loucura de brasileiro.




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