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  • Dagomir Marquezi

Roberto Navarro (1956 - 2022)


Meu amigo Roberto Navarro teve uma morte muitas vezes anunciada. Primeiro quando virou correspondente de guerra da rede japonesa NHK. Nesse período (décadas de 1980/1990) viveu alguns anos entre Tóquio e alguns rincões da Terra abalados por guerras selvagens e esquecidas. Correu perigo de vida muitas vezes, foi ferido na Índia. Vivia intensamente, procurando aventuras cada vez mais radicais.

E então ele foi diagnosticado com uma doença degenerativa. Trocou os campos de batalha por hospitais e tratamentos sem fim. Sumia algum tempo no meio de uma crise, voltava com a sensação de que tinha escapado mais uma vez. Escapou até agora.

Eu, Roberto Navarro e Claudio Poles (Foto: Nellie Solitrenick)


Conheci o Navarro quando fui estudar jornalismo na FAAP. Foi uma amizade instantânea, ainda que ele fosse meio fechado em certas áreas de sua vida. Seu apartamento da rua Rego Freitas virou uma base para quem quisesse se divertir, fazer um som, comer thrash food e se encher de Coca-Cola.


Foi o Navarro que deu um rumo à minha vida criativa ao me apresentar a música de Frank Zappa. Deixei isso claro várias vezes em artigos que escrevi. Tocamos juntos (com o amigo em comum Lu Gomes) na banda Esquadrilha da Fumaça.


Quando, ainda na FAAP, produzimos a fotonovela O Grotão, o Navarro foi o escolhido para ser o herói da história. Viajamos juntos (em vários sentidos). Aprendi a gostar de sua terra natal, Rio Claro e passamos ótimos momentos no Horto Florestal da cidade, que leva o nome de seu avô.

Depois de um período de distanciamento, eu voltei a falar com ele por uma causa. Eu o convenci a escrever um livro contando sua vida intensa como jornalista. Apesar de suas limitações físicas, o Navarro mostrou que tinha fibra e me mandou um material a ser editado.


Cada vez mais ocupado na minha vida profissional, não dei a atenção que o livro do Navarro merecia. Ao mesmo tempo, essa produção foi marcada por atitudes contraditórias por parte dele que, imagino, seguiam as oscilações de sua saúde. Quando me desculpei pelo atraso na edição, ele me disse que não me preocupasse, pois ele teria muito tempo e já tinha planejado vários outros livros.


No dia 20 de março, seu aniversário, ele me mandou um email avisando que tinha passado dois meses na UTI depois de uma cirurgia de emergência, e que "pensava preciso sobreviver pois quero ver a publicação do e-book Crônicas de Guerras Esquecidas" Eu então corri para transformar o texto num livro. Aí no dia 24, recebi seu último e-mail dizendo que o texto estava incompleto, e ele queria mais um tempo para a redação final. "Não tem pressa", escreveu. Três dias depois, ele partiu.


Agora eu tenho um compromisso com meu amigo, que será cumprido: publicar esse livro em seu nome.

Foto: Luciana De Francesco

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